308



Hoje me bateu uma saudade gigante do meu querido e amado 308. 
Faz um mês que ele virou uma das páginas mais intensas e importantes do meu passado.
Lembro como se fosse hoje o dia que abri aquele apartamento pela primeira vez, era uma menina desembrulhando sua casa de bonecas em tamanho real.
Nos primeiros dias a casa ainda era uma bagunça, ficamos sem energias nas primeiras 36 horas, mas pra mim era tudo lindo, era tudo um conto de fadas.
Com o passar os dias, acabei ganhando o cargo de 'chefe da família', comecei a ter responsabilidades de gente grande e gostei daquilo. Aprendi muito nesses três anos e seis meses com o 308.
Aprendi que quando se vai arrombar a porta de um banheiro, você deve gritar antes: '- sai da frente'. 
Aprendi que com criatividade e um varal na mão, você consegue consertar uma cama.
Aprendi que com um pedaço de Bombril, você criar uma antena para TV de última geração.
Aprendi que atravessar varandas no terceiro andar pelo lado de fora é emocionante e totalmente sem noção.
Aprendi que colocar uma panela de arroz no fogo e ficar no facebook, não cheira bem.
Aprendi o quanto é ruim ficar doente e não ter ninguém pra te ajudar.
Aprendi que dormir faz a fome passar. 
Aprendi que por mais que sejamos amigos de alguém é muito difícil continuamos assim depois da convivência.
Aprendi a chorar com chuveiro ligado.
Aprendi o quanto vale cada centavo gasto.
Aprendi a dormir de rede e no chão duro.
Aprendi o significado da palavra respeito.
Aprendi que andar de calcinha e sutiã dentro de casa é normal.
Aprendi a ser pai, mãe, filha, amiga, inútil, menina assustada, mulher madura.
Aprendi que banheiro não é cabine telefônica.
Aprendi que cantar com fones no ouvido é torturante pra quem escuta.
Aprendi a calar, quando o que eu mais queria era gritar.
Aprendi a gritar, pra ser ouvida.
Aprendi a lavar roupa.
Aprendi a dormir com a luz acessa pra minha colega poder estudar.
Aprendi que estudar na rede é o mesmo que pedi pra acordar com livro na cara.
Aprendi a respeitar a loucuras dos outros.
Aprendi que nada jamais será do jeito que eu quero.
Aprendi o quanto é importante o diálogo.
Aprendi o quanto a saudade doí.
Aprendi o quanto é sofrido passar seu aniversário longe de casa e não ganhar sequer um parabéns de quem mora com você.
Aprendi que café quente queima e que é melhor eu não tentar mais faze-lo.
Aprendi a amar das suas N maneiras.
Aprendi muita coisa no 308, mais até do que na faculdade. Cada cantinho daquele apartamento me traz lembranças. Lembranças que talvez nunca sejam confessadas, lembranças vividas e guardadas para nunca serem esquecidas.
Se as pessoas que moram nele hoje aprenderem um terço do que eu aprendi e vivi lá, posso dizer que elas serão pessoas bem melhores.
Faz um mês que entreguei sua chave. Dessa vez não era uma menininha com sua casa de boneca, era uma mulher fechando as portas do lugar onde ela viveu e aprendeu as maiores lições da sua vida.

Diandra Muniz