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Meu Momento ♡

Você poderia ter sido o homem da minha vida

[Você pode ler este texto ao som deSay Something]
           Olá, espero que as coisas estejam fluindo na sua vida desde a última vez que nos encontramos. Faz um bom tempo que meu coração fica inquieto e pede para que eu escreva para você, bom, confesso que já escrevi umas duas vezes e em seguida rasguei o papel. Dessa vez resolvi escrever aqui, não te enviarei, mas eu sei que um dia acabará chegando em você.         Bom, a primeira coisa que queria te dizer é que você poderia ter sido o homem da minha vida, talvez não no momento que nos esbarramos na primeira vez, mas quem sabe agora ou lá na frente, porém, não é e nem será, é, você estragou tudo (não falo do nosso pseudo-relacionamento), você  mostrou ser alguém que eu não gostaria de dividir nenhum segundo do meu dia, quanto mais minha vida.          Não, não tenho mais raiva de você, por muito tempo tive medo, sim, medo, você me fez sentir algo que nunca imaginei que sentiria, e hoje olho para o mundo com outros olhos, me sinto ma…

O amor começa

 
Naquele mesmo café engordurado onde outro amor acabara depois de começar em parques de ouro; num começo de noite de domingo de brisa e lua cheia depois de teatro e alegria; na identificação de um sorriso gêmeo, perdido na multidão, quando eles dois desviaram brevemente a atenção de suas rodas e se olharam encontrados. De repente começa o amor, admirado em singelezas e gratidões; na leveza da mútua admissão de humildades e pequenezas; no reconhecerem-se humanos – falíveis, pois – e nada além. No molhado do ombro amigo que consola a perda de outro amor; na vazante das marés ciscando areias; em trocas de telefones depois de batidas de carros; num quarto de motel, pela manhã, quando o pacto do vazio do sexo casual entre amigos começa a deixar de ser cumprido. Numa trombada acidental em uma loja de CDs em Varsóvia, na poesia barulhenta da Feira do Crato, nos recônditos cantos onde a tensão se desfaz em Mianmar, na fila da carne do mercado do Ver-o-Peso, no encontro casual de dois jovens numa boca-de-fumo no Morro dos Macacos. E se inicia o amor como raiva, inveja, até como ódio, para depois irromper em paixões arrebatadoras que, findas, se desfiarão em ternuras. Pulsa o amor no verão, quando ainda não é mais que tesão nas ancas largas que passam rebolando no calçadão de Copacabana e certamente virá a ser a plenitude atlética de trepadas homéricas ainda antes que o refestelo se torne amor entorpecido; mas mais provável que comece na carência do inverno, estação sórdida, de memórias e abraços. Pode o amor começar na empáfia das mulheres empedernidas que nasceram dizendo não; seguro que vá nascer dos rompantes coléricos dos Florentinos Arizas à procura de suas Ferminas Dazas. O amor começa em sorvetes de pistache em terças-feiras tediosas e é bem capaz que saia das sombras como amor-resposta. Na África se inicia como solidariedade; na Ásia, como sabedoria; em Cuba, como resignação. Em qualquer lugar, como entrega, doação. No Brasil o amor poderá começar da saudade. Nascerá de corações dilacerados, daqueles mesmos que o médico sentenciara imprestáveis para o amor. Três goles de cerveja e o amor começa, uma tortinha de morango e o amor começa, duas aleluias e o amor começa. Em hospitais, já perto do fim, entre os que vão e os que ficam, o amor começa. Por qualquer motivo o amor começa; a qualquer hora o amor começa, em qualquer lugar o amor começa. E começa nem que seja para acabar uma vez mais, ainda antes de começar novamente.

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